Entrevista com Kah Dantas

A entrevistada deste post é a minha querida amiga e escritora, Kah Dantas. Nessa entrevista, abordaremos, principalmente, o livro escrito por ela, intitulado – “Boca de Cachorro Louco”. Este descreve, em seu conteúdo, um relato pessoal próprio vívido pela autora, e que ilustra bem os diversos casos de relacionamentos abusivos existentes em nosso país. No entendimento que tenho sobre o assunto, acredito que seja um trabalho de importante cunho social que merece ser divulgado e aplaudido, não só pela coragem da Kah Dantas e de quem a apoiou, mas por toda a sua importância dentro do atual quadro nacional existente.

Além do livro, conheceremos o trabalho da ONG Taturana Comunicações e um pouco do canal “Conta, Kah!”, o canal de nossa entrevistada no Youtube.

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1 – Kah, quando surgiu a ideia do livro “Boca de cachorro louco”?

Um dia, dando uma espiada nos meus escritos, acabei encontrando o diário que mantinha na época do relacionamento descrito no livro. Aqueles textos, lidos em um contexto diferente, representaram uma descoberta. E acompanhando a dor de relembrar momentos tão difíceis, veio um esclarecimento que eu sinceramente não esperava. Fiquei atordoada, mas a certeza foi quase imediata: precisava publicar, sabe? Foi aí que resolvi reunir os textos no formato que o Boca de Cachorro Louco tem hoje e transformá-los em um livro de fato.

 

2 – Até que ponto emocional você acredita que uma pessoa possa se envolver com a leitura do texto encontrado no livro?

Bem, não posso falar pelos outros, mas entendo que uma pessoa que tenha vivenciado, ou que ainda vivencie uma situação de abuso semelhante à minha, poderá encontrar uma leitura penosa, mas libertadora pela frente, por exemplo. Acho que as experiências de cada indivíduo ditarão seus níveis de envolvimento, sejam experiências literárias ou de vida. De um modo geral, acredito que a minha história seja muito valiosa no sentido de esclarecer as inclinações emocionais de pessoas que vivem em situação de relacionamento abusivo.

 

3 – Que tipo de apoio você recebeu quando surgiu a ideia e quais pessoas você poderia citar como fundamentais para a execução e divulgação da ideia e do livro?

São duas as pessoas que, além de mim, trabalharam exaustivamente para que a publicação do Boca de Cachorro Louco tivesse êxito: Sâmia Lopes, grande amiga e jornalista; e Tiago Ribeiro, diretor e produtor do Conta, Kah!, além de meu parceiro pra tudo na vida.

4 – A liberdade de redação existente no texto torna a obra mais viva e intensa, mas complica no momento de se buscar uma editora. Na sua opinião, você acredita na existência de uma “censura” dentro das editoras sobre determinados temas?

Sim, sim, com certeza. Existem muitas linhas editoriais e nem sempre as obras se encaixam nelas, não é mesmo? O problema reside no convite desrespeitoso de mudar o formato ou proposta da obra. No caso do Boca de Cachorro Louco, a maneira visceral como o tema é abordado não faria sentido se modificada, até porque o texto é autobiográfico. Resta-nos continuar buscando morada mais acolhedora pras nossas histórias e torcer para que esse tipo de coisa não aconteça mais.

5 – Como você vê a relação entre relacionamentos abusivos e o machismo cultural existente?

É uma relação muito íntima. No meu caso, eram dois aspectos indissociáveis. O caráter machista do meu ex-parceiro era como combustível para as agressões, verbais ou físicas. Os conceitos e comportamentos que são inerentes ao universo machista devem ser combatidos diariamente. É não só uma questão de educação, mas de saúde pública. O machismo mata, minha gente.

6 – Apesar de a obra ter sido lançada este ano, você já recebeu críticas negativas ao texto? Na sua opinião, por que a sociedade ainda é tão conivente com esse tipo de relacionamento e tão “ofensiva” quando o assunto é pautado?

Vamos lá. Até agora ainda não recebi (pelo menos não fiquei sabendo) críticas negativas ao texto. Felizmente, tive bastante apoio, tanto dos leitores quanto produtores culturais de Fortaleza, depois da publicação do Boca de Cachorro Louco. Mas com certeza houve muitos julgamentos, a respeito da minha vida sexual, da publicização da minha vida mais íntima, e por aí vai.

7 – O livro possui um caráter social importante a ser debatido pela sociedade em geral. Até que ponto você acha que este vínculo histórico-social do “cabra macho” prejudicará a divulgação do seu trabalho?

Prejudicará à medida em que ainda funcione para estimular o preconceito e a violência contra nós mulheres e contra a liberdade à qual temos direito. Nesse sentido aí, meu livro poderá ser encarado com bastante desconfiança e, por que não, como uma grande farsa. Há muita gente mundo afora disposta a se colocar a favor do meu ex-parceiro e das agressões cometidas, e contra a minha liberdade sexual, liberdade de expressão, direito à vida e à dignidade, etc.

8 – Pode nos falar um pouco sobre a ONG Taturana Comunicações?

A Taturana é uma iniciativa que tem menos de um ano, ainda, e através da qual prestamos serviços de forma voluntária, desde revisão de textos à produção audiovisual, como forma de captar recursos que promovam ações solidárias em Fortaleza, especialmente visando ao atendimento de animais carentes. É um projeto lindo e tenho muito orgulho de, junto ao Tiago, ter desenvolvido essa ideia.

9 – Pode nos falar um pouco do “Conta, Kah”?

Meu canal lindo no YouTube que, apesar de dar muito trabalho, tem sido muito recompensador (e muito legal!). Ele foi criado para dar visibilidade à minha modesta produção escrita. Sempre gostei de escrever e de participar de concursos literários, mas nenhuma premiação me deu tanto gosto ou oportunidades de ser reconhecida como esse canal tem me dado.

10 – Que recado você gostaria de deixar para todos que leram essa entrevista? E que recado tem a deixar para quem sofre com relacionamentos abusivos?

Aos seus leitores, muito obrigada. E para aquelas ou aqueles que sofrem em um relacionamento abusivo, eu gostaria de dizer que esse não é o fim, sabe? Não precisa ser o fim. Sempre há uma saída, se a gente olhar com cuidado. Ninguém merece submeter-se a um relacionamento abusivo e não há justificativas que aliviem ou fundamentem a ocorrência de maus tratos, físicos ou emocionais. Sai dessa, viu? Seja forte, ame-se, ponha um fim nesse relacionamento. Se não está fácil, procure ajuda. Corre para o abraço de quem quer verdadeiramente o teu bem. Cada um de nós merece ser amado e ter a integridade física e mental respeitada e preservada. Há

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