Desabafo do Meligeni

Achei necessário repostar tal texto de um dos principais tenistas da história do esporte no país, Fernando Meligeni, pois acredito que tal texto retrata bem o sentimento quem vive e sente o esporte no país. Como um quase profissional da Educação Física, que se Deus quiser, irei atuar na parte desportiva, acredito que esse texto é importante para entendermos a atual situação do nosso esporte e entender porque ainda estamos longe das principais forças olímpicas, apesar das imensas possibilidades que possuímos de encontrar talentos nas mais distintas modalidades nesse nosso gigantesco país. Leiam com atenção cada palavra. Lembrando que Meligeni já havia negado a “Tocha Olímpica” por motivos parecidos. Parabéns, Meligeni! O esporte vem precisando de mais gente assim!

fernando-meligeni

Era uma vez… Ou melhor: há muito tempo atrás, um presidente da República, um presidente do COB, um ministro dos esportes, vários governadores, políticos, ex-atletas e atletas pulavam felizes com a conquista do nosso país para sediar as Olimpíadas no Rio de Janeiro. Entre gritos histéricos, promessas impossíveis, demonstrações de patriotismo sem fundamento, muitos deles deram entrevistas dizendo que nosso esporte seria diferente, que mostraríamos ao mundo como se faz um grande evento desde a preparação, passando pela realização e o pós-evento. Será que algum deles acreditava mesmo que isso era verdade?

Eu, sinceramente, nunca acreditei. Não é de hoje que venho falando, me colocando em situação complicada e muitas vezes tendo que pagar o preço de ser “DO CONTRA” ou “o chato”. Mas sinceramente passei da idade de acreditar em fadas ou Papai Noel ou simplesmente em políticos e dirigentes esportivos.

Ficaria aqui horas destilando minha raiva no que eu já sabia. Prefiro falar do que me revolta.

Os nossos dirigentes acham, realmente, que somos bobos, otários ou imbecis. Tive a chance de entrevistar ministro, dirigente, atletas, técnicos de quase todos os lados antes das Olimpíadas, e o que mais me chamou a atenção é que nossos dirigentes brigaram comigo, discutiram dizendo que eu estava errado, que éramos pessimistas ou que torcemos contra. Diziam que os Jogos trariam benefícios incríveis. Que o esporte mudaria. Que eu iria ter que me retratar. Pergunto a vocês, MUDOU? Quer que eu pergunte outra vez, senhor ministro? Pergunto para o senhor presidente e superintendente do COB. MUDOU?

Se realizar as Olimpíadas é ganhar medalha, nem isso conseguimos com tanto louvor. Fomos bem, mas nem de perto como um país anfitrião teria que ir. Sabe por quê? Porque não fizemos um bom trabalho. Nem antes, nem durante e muito menos depois.

A resposta está no pós-evento. Falaram que teríamos um pós-Olimpíada com incentivo e nada mudaria. Só que não.

Falaram que as instalações seriam bem usadas pela população, pelos atletas, seriam centos de treinamentos. Só que não.

Falaram que o país viraria mais esportivo. Só para avisar: até a educação física deixou de ser obrigatória dias depois dos Jogos. Parabéns, senhores!

Ah, e falando das instalações falando apenas de tênis (acho que disso eu entendo) temos a grata notícia que a nossa arena será invadida por 18 toneladas de areia para um evento de vôlei de praia e depois de rugby e handebol de areia. Que beleza. Será que tenho que ficar feliz?

O Centro Olímpico de Tênis está fechado desde o final da Paralimpíada. Uma entidade joga na mão da outra e agora está na competente mão do Ministério dos Esportes. Desculpem o desabafo, mas deixar fechado um Centro Olímpico depois do dinheiro que se gastou é um afronta ao esporte, ao povo e ao dinheiro público. Ter que escutar que é melhor usar a arena para outros esportes do que deixar fechado é como dizer dizer que nosso povo não tem mais dinheiro porque não trabalha… Mentira! Nosso povo trabalha muito, e nosso esporte é muito mal administrado.

Sinto dizer que, mais uma vez, caímos na mesma ladainha que eu escutei quando eu fiz um discurso ao presidente da época, depois da minha medalha do Pan, e ele, com um sorriso lindo no rosto, disse que o esporte seria bem cuidado por ele. Só que não.

Triste ver que os atletas lutam, correm, nadam, jogam e tem pessoas que não sabem e não se importam com esporte. Triste saber que estamos sozinhos em um país que não merece ter o Ayrton Senna, o Oscar, o Guga, o Pelé, a Hortência, a Maria Esther Bueno, a Magic Paula, o Robert Scheidt, o Emanuel, o time de vôlei masculino e feminino, o Zé Roberto Guimarães, o Bernardinho, entre outros incriveis campeões.

Cansado de ver presidente de federação e confederação em problemas de corrupção. Cansado de ver entra e sai de ministros que pouco ou nada fazem ou sabem de esporte. Cansado de ver atletas aceitando calados esses desmandos. Cansado de gritar sozinho por algo que é de todos nós…

O esporte está morrendo, e os senhores dirigentes do esporte estão rindo da nossa cara, olhando cada um de nós definhando.

Viva o esporte! Chega de incompetência!

FERNANDO MELIGENI

Clique aqui e leia o post original no Site da ESPN

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