Muito Além do Simples Momento

Essa produção textual é de Beatriz Barros, aluna da UFC, que além de se garantir em sua área de atuação e em assistir séries, mostra ser uma excelente escritora. Não leia, sinta o texto.

Você já teve aula de anatomia?
Mas já teve quando estava com um mês que havia perdido alguém?
Já imaginou que aquele corpo podia ser do seu alguém?
Ficava pensando na deterioração dia a dia do corpo daquele seu alguém?
Assim é quando a realidade tira tempo pra dar tapa na sua cara, e ao mesmo tempo a saudade, um bixo feio que gosta de machucar e fazer sofrer com qualquer mínima lembraça, decide te visitar.
Pode-se tentar vencê-las com a crença de que todos estão aqui de passagem, só para cumprir uma missão.
Ao exemplo da aula de anatomia, tinha-se a dura realidade de que não sendo usado para estudo (considero ainda uma missão), após cumprida a tal missão ao qual se estava destinado, o corpo não era mais necessário, e a alma estaria livre. Mas a saudade insistia em querer tocar naquele corpo, fazia parecer que aquilo era de extrema necessidade, quando outras coisas que podiam ser revividas em mente é que deveriam ser suficientes…
Deveria ser suficiente saber que uma mulher ajudou muito a filha ao auxiliar na criação da neta, e que só se deixou enfraquecer no dia que a neta fez a matrícula na faculdade, “encaminhando sua vida”, podendo assim, a avó partir tranquila com sua missão cumprida.
Deveria ser suficiente mas a realidade não permite, ela passa na cara sua fraqueza de não aprender a refazer sua rotina, te faz ver como sua vida é agitada agora, daí vem a saudade que te faz lembrar daquele ambiente que mesmo com algumas brigas, era um ambiente de paz, onde a neta morava com a avó, uma fazendo companhia à outra, como quando assistiam as novelas, coisa que a neta hoje só, não faz mais. Hoje ela está sem as novelas que a avó assistia na sala enquanto ela estava na área a estudar, e que se juntava a avó na última novela e permanecia naquela companhia até o bobo programa que passava após a novela.
Realidade e saudade juntas te fazem pensar como o agora não é suficiente, e voltando ao exemplo das novelas, você vai se dar conta que não assiste mais novelas porque não tem mais quem te conte sobre o capítulo que você perdeu enquanto estava na aula ou porque estava cansada demais para assistir, e você percebe também que nem terminou de assistir aquela novela que faltava só uma semana para acabar quando ela se foi.
Mas não são só novelas, tem também o feijão maravilhoso que você nunca mais vai comer porque não há mais alguém pra fazer…
São muitas novelas inacabadas e feijões não comidos que te perseguem pelo resto da vida com a lembrança de alguém que se foi.
Mesmo com todos os alertas de que nada é pra sempre, e de como a vida é passageira, você sempre acha que alguém vai te contar o capítulo que você perdeu, e que vc poderá deixar para comer depois aquele feijão.
Só que tudo isso agora é seu passado. Seu presente é assistir aquela aula e encarar que a cada dia a deterioração só aumenta e você tem que aprender a controlar e suportar sua atual realidade, e perceber que alguém ter terminado sua parte na história é sim suficiente, e que você deve seguir em frente com a sua, que não deixa de ser uma continuação da história da outra pessoa.

BEATRIZ BARROS

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