Fora de Campo

 

Num país marcado pela cultura do futebol, o documentário Fora de Campo lança seu olhar para os jogadores e ex-jogadores da terceira divisão do futebol brasileiro. Ao contrário do sonho de sucesso, esses profissionais têm uma carreira nada glamorosa e ao fim dela se deparam com o desemprego e a falta de perspectiva profissional aos trinta e poucos anos de idade.

O mundo do futebol em “Fora de Campo” não passa no Globo Esporte. Exibido na mostra competitiva de longas nacionais, no festival “É Tudo Verdade”, o documentário futebolístico conta histórias de fracassos, desilusões e amarguras de jogadores profissionais. Curiosamente com a mesma duração de 52 minutos, o filme adota a estratégia inversa do celebrado “Argentina e sua Fábrica de Futebol” (Sérgio Iglesias, Argentina, 2007): ao invés de ilustrar a decepção da maioria dos jovens aspirantes a craque, mostra a outra ponta desglamourizada da carreira, a dos jogadores veteranos.

Direta e sem firulas, a câmera passeia por jogos de times obscuros da terceira e quarta divisões, entra em vestiários de estádios longínquos e finalmente nas casas simples de jogadores ainda atuantes e aposentados. Ali, ela encontra chuteiras surradas, rostos melancólicos, nostalgia de glórias que não voltam, bem como a labuta para pagar as contas da família. O eixo narrativo inverte a lógica da superação, em que uma derrota parcial é apenas momento da vitória final. Assim, bem realista, a determinação e o esforço não premiam o protagonista e a vitória parcial culmina na derrota derradeira que encerra o longa, sem catarse, sem superação individual.

“Fora de Campo” mostra que essa realidade é a regra e não a exceção. Aponta que somente 8% dos profissionais jogam na primeira e segunda divisões do Brasileirão. Abaixo dessa elite que aparece na TV, há a espessa base da pirâmide social futebolística, marcada por baixos salários, calotes e desmotivação. E ainda expõe que, mesmo jogadores consagrados em times grandes e no futebol europeu, por vezes terminam pobres e desamparados na aposentadoria.

Limitado a expor o drama individual dos personagens, faltou ao documentário dissecar as causas e razões dessa situação agudamente desigual. Porque todo o enredo do filme é efeito de superfície da estrutura antidemocrática do futebol brasileiro, que concentra tudo em times gigantes e celebridades. Essa organização concentracionária tem raízes históricas e decorre da promiscuidade entre o monopólio de trasmissão televisiva, a cartolagem e as políticas do Ministério de Esportes. Isso, lamentavelmente o filme sequer faz alusão e finaliza com pouco mais de cinqüenta minutos com mais a ser dito sobre o tema.

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